E aqui é preciso deixar uma coisa absolutamente clara: desobediência civil não é violência. Não é barbárie. Não é destruição gratuita.
É retirar legitimidade de estruturas que perderam o direito moral de exigi-la.
É parar de colaborar com aquilo que se considera profundamente injusto.
É fazer com que uma sociedade compreenda que nenhum poder se sustenta indefinidamente sem algum grau de consentimento daqueles que estão submetidos a ele.
Porque, no fim, que poder é esse que só consegue sobreviver quando ninguém questiona?
Que República é essa que precisa silenciar seus críticos para preservar sua própria legitimidade?
Que democracia é essa que exige obediência enquanto abandona os princípios que deveriam justificar essa obediência?
Insistir no jogo viciado não é prudência. É cumplicidade com a própria irrelevância.
E qualquer tentativa de vender reformas cosméticas como solução definitiva — reformas do Judiciário, mudanças pontuais na legislação ou rearranjos políticos — neste cenário corre o risco de não passar de mais uma operação de preservação do próprio sistema.
São bombeiros tentando apagar o incêndio para salvar o monstro, não para destruí-lo.
Trocam-se peças. Trocam-se discursos. Trocam-se ministros. Trocam-se governos.
E a máquina permanece.
Foi exatamente essa a lição que deveria ter sido aprendida com a Lava Jato.
Durante algum tempo, muitos acreditaram que finalmente o sistema seria enfrentado. Mas o monstro se reorganizou. Reagiu. Absorveu o impacto. Recuperou seus mecanismos de defesa e voltou ainda mais fortalecido.
E nós assistimos.
Atônitos.
Divididos.
Desorganizados.
Calados.
Essa é a parte que não podemos repetir.
O Brasil não precisa de mais um ciclo de ilusões. Não precisa de mais uma promessa de que, desta vez, algumas mudanças superficiais finalmente consertarão tudo.
Não consertarão.
O que está diante de nós é maior do que um governo. Maior do que um partido. Maior do que uma eleição.
É uma estrutura de poder.
E estruturas de poder não desaparecem porque alguém lhes pede educadamente que desapareçam.
Desta vez, precisamos de coragem civil. Precisamos de lucidez. Precisamos de organização. Precisamos abandonar a ingenuidade de acreditar que aqueles que se beneficiam da estrutura serão espontaneamente responsáveis por destruí-la.
E, acima de tudo, precisamos construir uma forma de organização política que não tenha como finalidade conquistar o Estado para benefício de uma nova casta, mas devolver o Estado à sua única razão legítima de existir: servir à nação.
Porque o Brasil não precisa trocar de senhores.
Precisa deixar de ter senhores.
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